Razões Sentimentais
O frio e a escuridão do quarto eram os únicos confortos que eu me permitia apreciar. Eu estava presa nesse minúsculo mundo onde o passado vagava entre as paredes, os móveis, as janelas e por entre meus dedos trêmulos. Minha mente como um viajante já a muito perdido, passeava entre os prados das dores sentimentais e buscava as razões, as circunstâncias que permitiram que ele me deixasse, agora pareciam-me completamente ilógico. A colcha branca de minha cama bagunçada guardava doces lembranças de nós, a janela onde observamos o mundo, hoje só avistam pessoas vazias, luzes foscas e a chuva que parecia eterna. Ainda era tarde e sentada na cadeira em frente à janela vejo pessoas andando com seus guarda-chuvas e carros passando em baixa velocidade. Meu gato aparece como se do além e encosta-se em mim com carinho. Abruptamente lembro, meu rosto se tenciona e então sei que vai começar. Ele chega em mim como aquela familiar onda, o mar de meu desconsolo, tão inesgotavelmente atormentado
A dor de sua ausência é como um luto. Para mim, ele havia morrido, como que em meus braços e eu nada poderia fazer. Não via sentido em coisa alguma, sequer podia viver normalmente. O mundo mostrava seu lado errado, torto, desprovido de forma. Eu jamais o teria novamente, nunca sentiria o toque e ouviria o som de sua voz, tão doce aos meus ouvidos, que pronunciou tantas milhões de vezes que me amava, que estaria comigo para todo o sempre. Esse cataclisma de sentimentos corrompe-me pois de nada sirvo sem ele. Essa dor machuca. Por vezes, vejo que talvez a maior dor esteja onde brando minha própria espada, corto-me em pedaços e deixo morrer, mas também sei que ele tem certa culpa disso.
Os primeiros indícios de seu desgaste se deram no início do segundo ano de namoro. Já nos conhecíamos suficientemente bem para notar os pequenos atos incongruentes, as queixas sem nexo, os suspiros pesados e o choro na madrugada. Eu o via recair sobs os cantos, andar em um velocidade anormal e tencionar o rosto ao falar comigo, aquilo não era ele. Conversávamos sobre isso, sempre o mesmo "tem algo errado, não sei o que é mas não é mais a mesma coisa" e no fim das contas o que havia de errado era eu. Mesmo todo esse amor não foi suficiente pra impedir de deixar você ir e mesmo depois de tanto tempo ainda tenho as cicatrizes que você me deixou. Abertas, sangrando sem parar, doendo mais quando penso em ti e no quanto eu poderia te fazer feliz. Eu acho que todos nós tivemos o que merecemos, no final das contas.
Por: Christian Fonseca
