Os Primeiros Astros




Era apenas o início, os primeiros segundos no infinito. Encontrava-se debruçada sobre o domo na escuridão, fomentada em silêncio e fundada no vazio, vagava em sua imensidão errante a Sombra. Em seu âmago uma inconformidade residia. Tudo parecia-lhe corrompido, estranho em sua própria auto-realização. Sua existência, aparentemente sem razão nem propósito, foi questionada. Exaurida pela dúvida ela se pôs a pensar:

- Se eu, envolta em trevas, sou uma sombra então onde está minha luz?

Buscou em si todas as forças vagando pela penumbra e nada foi encontrado. Na dor de sua própria ausência, conjurou as dores da alma e deixou-se morrer, afogada em si mesma, ela nunca alcançaria harmonia que a satisfizesse, eternamente presa em suas próprias correntes. O desconforto porém, parecia rasgá-la, os questionamentos se debatiam em sua volta. concretamente insaciada, necessitava de respostas.

Assumia seu posto na ignorância, oprimida. Então a fúria nasceu, acentuando ainda mais sua dor. O tempo ainda não havia se originado, porém em termos humanos, o lapso em que Sombra esteve sozinha foi brutal. Então Sombra, afogada em si, concebeu que já estava a uma infinidade de distância da superfície. Ela caiu demais, em hipótese alguma voltaria a ser quem era antes. Apesar das tentativas falhas de chamar um suposto alguém, ouvia apenas sua voz interior, então calou-se e pensou. 

Sombra tinha anseios e desejos, um dia queria poder ser algo brilhante, queria chamar-se lua, pois para si soava sereno. Não acreditava que merecesse nome algum, mas o Criador sabe e tem seus motivos. Sombra já sem propósito, denominou-se Lua e pela primeira vez ela viu o que se chamava luz. O brilho pareceu-lhe familiar, como se sempre estivesse alí. O som, o frio e o calor nasceram instantaneamente. Sombra que antes vagava sem rumo tornara-se Lua e a Lua que apesar de fria, guardava em seu interior um calor inebriante. Sua queda não lhe destruiu, agora seu íntimo a acolhia como que de braços abertos e no fim do todo o seu ser só havia a luz perpétua. Envolta do seu primeiro traço de amor reconheceu que não obstante uma nova sensação, a luz era viva e a fitava profundamente.

A luz até então adormecida, parecia não notada por ninguém além do criador, que aliás, sabia que havia um destino significativo, e assim se fez. Absortos, trocaram suas primeiras palavras:

- Me chamo Luz, nunca vi nada parecido com você!

Disse nervosa, afinal, nunca tinha visto algo tão bonito em toda a sua existência.

- Luz é um belo nome. O que faz aqui? É longe e escuro, não há nada aqui.

- Nada? Claro que há. Tem eu. Achei que não tinha nada. O que é você?

- Me chamo Lua. Você acordou? Quer ir para cima? Eu não consigo sozinha.

Luz gargalhou e Lua assustou-se.

- Pra cima? Nós iremos para baixo. O infinito é muito além do que olhos conseguem ver, ele só é visto de dentro para fora e nós ainda não estamos no final. Vamos logo! E partir de agora me chamo Lua.

Juntos eles foram para baixo, o mais profundo que conseguiram. A sensação de vazio ao seu redor não amedronta-os pois agora tinham um ao outro e isso era o bastante. Então subitamente Lua parou, ela passou tanto tempo com Sol que, por vezes, parecia que eram um só. Lua queria ser Sol um dia, tão brilhante. Lua perguntou para Sol:

- Sol, o que acha de nos juntarmos, de sermos um só?

Sol rindo exclamou:

- Que ideia! Ser um só! Eu sou eu e você é você. Eu sempre serei eu pois gosto de ser eu. Que ideia! Oras, você não gosta de você?

Lua irritou-se com a pergunta. Sentia atingida pois sabia que no fundo ela não gostava de si mesma. Desde sempre sentia que havia um erro intrínseco em sua existência, faltava algo e ela não se contentava com isso. Lua indagou:

- Mas o que te custa? Eu te amo e você me ama, por que não podemos ser um só? Eu queria ser você! Eu nunca serei você, nunca!

Lua começava a se desesperar.

- Claro que nunca será eu, você não basta para si mesma? Você nunca amou a si mesma?

Lua vociferou:

- Como eu me amaria? Não tenho nada de bom, falta algo em mim, falta algo…

Você é diferente, você brilha e é quente! Eu sou tão fria e escura…

Sol não entendia o propósito disso pois sempre viu Lua como a única que entenderia ele e suportaria todo aquele seu brilho que poderia cegar. Sol gritou de volta:

- Ama-te antes de amar a mim! Você é bela em sua escuridão, mesmo fria sua alma queima com o amor que lhe foi concedido. Não há nada que deva mudar pois é absoluta em seu próprio universo, nesse que você guarda dentro de si.

Lua já incrédula e desesperada embraveceu:

- Que universo de que? Eu não tenho nada, eu não sou boa em nada! Eu nunca serei completa, eu nunca irei brilhar!

O criador exausto de toda essa discussão sem sentido resolveu que a hora enfim chegou, ele iria separá-los para sempre. Viram-se afastando lentamente, Sol e lua clamavam e pediam por tudo o que se encontrasse no cosmos que isso acabasse. No local onde o destino já havia decidido que ficariam, Sol tão distante viu a Lua brilhar. Maravilhou-se com a vista e Lua nunca se sentiu tão especial pois sabia que aquela luz vinha dele. Nunca foi tão óbvio? Lua finalmente notou que seu lugar no mundo não era ser Sol nem estar ao lado dele, mas sim diante dele, onde poderiam contemplar-se e brilhar, como ela sempre sonhou. Sol era para Lua assim como Lua para Sol, um era a âncora do outro no mar do vasto universo. Infelizmente, foi necessário afastá-los para notarem que precisavam um do outro. Lua precisava do sol de longe para poder brilhar, o Sol era íntegro porém para sempre admiraria e amaria a Lua, mesmo que tão distante.

Playlist: https://open.spotify.com/playlist/7qavcFcoWs6msUiR7UB5rC?si=i63oLCAHTJiB20EM0OTgpg

Por: Christian Fonseca